Vitaminas: tomar ou não?

uso-de-vitaminas-saude

A discussão em torno do uso de vitaminas – especialmente para quem já passou dos 60 anos de idade – foi tema de debate no XIX Congresso de Geriatria e Gerontologia.

A questão mereceu uma mesa redonda no mais importante evento da área no Brasil. Intitulada “Uso de vitaminas na prática clínica x evidências”, a mesa foi coordenada pelo médico Milton Luiz Gorzoni, geriatra da Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo, e contou com a participação de Rubens de Fraga Júnior, geriatra do Paraná.

Fraga Jr. se colocou radicalmente contra a prescrição indiscriminada de complexos vitamínicos – uma indústria, segundo números apresentados por ele, que movimenta 68 bilhões de dólares anuais, sendo 20 bilhões apenas nos Estados Unidos.

“O público-alvo das vitaminas são os baby-boomers – ou seja, as pessoas que hoje estão na faixa dos 55- 70 anos. Elas são vendidas como um elixir da juventude e com promessas de evitar gripes e resfriados, reforçar a imunidade, conferir bem-estar e aumentar a longevidade”, disse o médico.

Esse mercado, afirmou, foi criado sem evidência científica. “Os estudos conduzidos nos últimos 20 anos envolveram números pequenos de participantes, acompanhados durante períodos curtos e com tantos vieses estatísticos que os resultados só contribuíram para criar contradições.”

As duas maiores causas de morte nos Estados Unidos – doenças cardiovasculares e câncer – não apresentaram redução com o uso sistemático de vitaminas, de acordo com Fraga.

Segundo o médico, muitos defensores da suplementação vitamínica utilizam a justificativa de que, se não fizerem bem, mal elas não fazem. “Mas isso não é verdade. Além dos efeitos colaterais associados a doses exageradas contidas em muitas apresentações, pelo menos dois estudos realizados para analisar o efeito protetor do betacaroteno em fumantes obtiveram resultados inquestionáveis demonstrando que a administração da substância aumenta a incidência de câncer de pulmão nessa população de risco.”

O caso do selênio e da vitamina E para prevenção do câncer de próstata é outro exemplo negativo. “Um estudo aponta a relação entre o surgimento de tumores na próstata e a utilização exagerada de selênio e vitamina E”, disse Fraga.

Vitaminas, no sem entender, são úteis para tratar crianças pequenas com deficiências e pessoas que tenham limitações para se alimentar adequadamente.

Milton Gorzoni sugeriu que idosos, com dentição comprometida, que se alimentam só com alimentos moles, talvez mereçam ser melhor avaliados se necessitam ou não da suplementação.

Fraga defendeu que pessoas que vivem em Instituições de Longa Permanência, sem condições de tomar sol, devem ser avaliadas quanto à necessidade de suplementar vitamina D – substância que, segundo o especialista, “está na moda”.

Ele apontou que, se prescrita, a vitamina D não deve ser utilizada por longos períodos e indiscriminadamente, como acontece em algumas situações.

Outro caso importante foi relatado por Gorzoni: idosos não costumam contar ao médico que fazem uso de polivitamínicos e muitos geriatras também não questionam. “Pode haver interação com outros medicamentos e piorar algumas condições, é preciso investigar muito bem essa questão”, alertou.

O hábito de tomar vitaminas – em geral, por automedicação – avaliaram os médicos, está bastante relacionado ao marketing agressivo que as indústrias farmacêuticas fazem. O cientista Linnus Pauling, ganhador de dois prêmios Nobel, foi um grande defensor de altas doses de vitamina – no caso, a do tipo C – para prevenir infecções virais e até câncer. Segundo estudiosos do assunto, ele consumia cerca de 18 gramas por dia de vitamina C. Talvez vítima do desconhecimento, Pauling morreu de câncer de próstata em agosto de 1994, aos 93 anos de idade. Sua esposa também faleceu de câncer – no estômago – em 1981.

O fato é que vitaminas não devem jamais ser tomadas sem prescrição médica. Ao contrário do que muitos falam, elas podem, sim, fazer mal à saúde.

-- --