Professor da Unesp, Vidal Haddad Jr, comenta acidentes por águas-vivas e caravelas nos estados do Paraná e Santa Catarina

águas-vivas e caravelas
Lychnorhiza lucerna uma das espécies não envolvidas com os acidentes comuns na área

Como especializado no tema acidentes por águas-vivas e caravelas, Vidal Haddad Jr., da Faculdade de Medicina da Unesp de Botucatu, afirma que vê com espanto a maneira como vem sendo abordado o surto de envenenamentos no litoral da região Sul, que apresenta atualmente mais de 18 mil casos nos estados do Paraná e Santa Catarina.

“Embora a maioria absoluta dos acidentes seja constituída de envenenamentos leves, o desencontro de informações em relação à gravidade e medidas de primeiros socorros traz imensos problemas para as equipes de saúde e para os pacientes”, diz.

“Em função disso, reunimos as informações obtidas nos anos anteriores que são fundamentais e pedimos que os colegas as avaliem e divulguem. Isto será um fator de colaboração com os profissionais envolvidos com a Dermatologia, com a Toxinologia, com a Medicina Tropical e ainda com os promotores de medidas preventivas e estudiosos dos organismos. Agradeço a consideração com meu pedido e creio que isto pode ser considerado uma iniciativa de prestação de serviços para nossa população. Estes acidentes são hoje os envenenamentos mais comuns observados no Brasil, devendo chegar a números espantosos até março, com estimativas de mais de 100 mil casos só naquela região”, comenta.

Acidentes por águas-vivas na região Sul: fatos a serem considerados
Os acidentes em série causados por águas-vivas na região Sul não são fatos novos. Estes envenenamentos, que sempre ocorreram esporadicamente, vêm acontecendo em maior escala há cerca de cinco anos no litoral do Paraná e de Santa Catarina, com aumento gradativo do número de pacientes, até atingir marcas elevadíssimas como os cerca de 12.000 pacientes no Paraná e 6.000 em Santa Catarina, entre dezembro de 2016 até 15 de janeiro de 2017.

Os fenômenos que causaram isso são relativamente bem conhecidos pelos profissionais que estudam cnidários (águas-vivas e caravelas) e as formas de prevenção e tratamentos de primeiros socorros também são bem estabelecidas. O problema começa quando a imprensa trata os surtos como se fossem novos a cada ano. Nada do que foi discutido e apresentado nos anos anteriores é considerado e depoimentos de pessoas nem sempre especializadas no tema pouco contribuem para esclarecer a situação.

Surtos são bem reconhecidos
No litoral do Paraná e Santa Catarina a maioria dos acidentes é causada pela espécie Chrysaora lactea e em menor escala, pela espécie Olindias sambaquiensis. Outras espécies não envolvidas com os acidentes são comuns na área, como a Lychnorhiza lucerna. Estas duas espécies, fáceis de reconhecer, causam acidentes leves a moderados e raramente algum envenenamento causa problemas respiratórios ou cardíacos e é classificado como grave, exigindo internação. As espécies de cnidários que podem causar envenenamentos muito graves são praticamente inexistentes na região, embora estejam presentes. Isso vale para as caravelas (comuns no Nordeste e Norte) e as cubomedusas. Os acidentes na região Sul não são graves! É fácil imaginar a catástrofe se fossem, com o número de vítimas neste início de ano… Os raros acidentes graves se somam à outra complicação: todas as espécies de cnidários podem causar reações alérgicas, que podem chegar ao choque anafilático. Assim, uma pequena fração dos acidentados (ínfima, mas real) pode se envenenar com gravidade ou fazer uma reação alérgica. Estes deverão ter atendimento hospitalar, embora a imensa maioria dos acidentados possa ter atendimento local com excelentes resultados.

Marcas e dor
As marcas na pele causadas pelas águas-vivas que estão causando os surtos no Sul raramente são lineares, podendo ser irregulares, arredondadas, ovais ou até exibir tentáculos curtos. A dor é intensa, mas breve. O tratamento para controle da dor emprega compressas de água do mar gelada e banhos de vinagre. Por que se faz isso? A temperatura baixa anestesia o local e a vinagre impede as células de veneno ainda ativas de aumentarem o envenenamento. Ambas funcionam e são excelentes medidas para envenenamentos leves (mais de 90% dos observados na região Sul). Mas estas medidas não impedem os raros casos graves, pois não agem no veneno.

Rio Grande do Sul
A geografia das praias do RS é diferente das de SC e PR e muita gente aproveita o período de veraneio nos estados vizinhos. O contorno de litoral mais recortado em SC e PR também favorece ​a chegada das águas-vivas, cujas populações realmente parecem estar aumentadas nesta época. A somatória de mais bichos e muitos banhistas está causando o problema, há cerca de 5 anos.

Regras e observações
A padronização do tratamento e conhecimento real sobre os animais são fundamentais para controle dos surtos e para a tranquilidade da população. “Acreditamos que a divulgação de informações corretas deve contribuir para isso. Não sabemos se o aumento das populações de cnidários na região é reversível, mas a explosiva somatória dos animais nas águas e a imensa população humana no veraneio é a causa destes surtos e devemos nos preparar para verões com números elevados de acidentes, que já são provavelmente os mais comuns envenenamentos por animais peçonhentos atualmente no Brasil”, conclui Vidal Haddad Jr.