Pesquisa mostra que quase 40% de policiais femininas dizem ter sofrido assédio (moral ou sexual)

Pesquisa inédita do Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP) indica que, de 2.415 policiais femininas entrevistadas, 39,2% declaram já ter sido vítima de algum tipo de assédio (moral ou sexual) dentro da própria corporação. Dentre as respondentes que afirmam já ter passado pela situação, 74,5% se declaram vítimas de assédio moral e 25,5% afirmam ter sido assediadas sexualmente, sentindo-se desrespeitadas ou forçadas a dar consentimento. “As corporações policiais ainda são um ambiente hostil à presença feminina. Contudo, nossa pesquisa identificou que essas mulheres são independentes e possuem um grau elevado de qualificação”, analisa Samira Bueno, diretora-executiva do FBSP.

A pesquisa “As mulheres nas instituições policiais”, produzida pelo FBSP em parceria com o Núcleo de Estudos em Organizações e Pessoas (NEOP) da Fundação Getulio Vargas (FGV), a Secretaria Nacional de Segurança de Segurança Pública do Ministério da Justiça e o Centro de Estudos de Criminalidade e Segurança Pública da Universidade Federal de Minas Gerais (CRISP/UFMG), ouviu 2.415 policiais do sexo feminino que trabalham em instituições policiais em todo o País e se voluntariaram para responder um questionário online, entre 12 e 26 de fevereiro de 2015. No total, estima-se que o Brasil conte com cerca de 75 mil policiais femininas (sem considerar as integrantes das guardas municipais para os quais não há um número consolidado), ou 12% do contingente de 600 mil policiais.

No geral, as mulheres que participaram da pesquisa são bem preparadas e com qualificação educacional para a função: 76,8% das respondentes possui ensino superior completo ou pós-graduação. Quanto à situação conjugal, 31,8% das policiais estão solteiras e 9,7% são divorciadas. Além disso, 46,8% das policiais não possuem filhos.

De acordo com a pesquisa, apenas 11,8% das policiais prestam queixa de assédio (moral ou sexual) e, destas, a maior parte (68%) não ficaram satisfeitas com os desdobramentos da denúncia. “Um ponto importante é que 48% das policiais que participaram da pesquisa afirmam que não há um canal específico para denunciar esses casos e 35% não souberam dizer se existe algum mecanismo formal para registo”, alerta Samira. “Isso evidencia a necessidade de se adotar políticas mais claras para que esses casos, dentro das corporações, sejam denunciados”, complementa. A pesquisa destaca, ainda, que na maior parte das vezes (74,1%), a violência (seja moral ou sexual) parte de um superior hierárquico, de acordo com as respondentes.

A maior parte das próprias policiais (57,4%), por outro lado, acreditam que o comportamento das mulheres dentro da corporação pode incentivar comentários inapropriados ou assédio, tanto de cunho moral quanto sexual. Além disso, 40,4% das entrevistadas acreditam que as mulheres usam de troca de favores sexuais para ascender hierarquicamente na instituição.

Outro ponto importante revelado pela pesquisa é que as mulheres querem ainda mais espaço na corporação: 62,7% das entrevistadas se manifestam contrárias à adoção de cotas para ingresso na corporação. Diversos Estados utilizam as cotas para limitar a participação feminina nas forças policiais. “Não fossem pelas cotas, o total de mulheres nas corporações provavelmente seria mais elevado”, avalia Samira.

Para 18,1% das entrevistadas, os homens são sempre privilegiados no trabalho, ao passo que o índice diminui para 4,5% quando a afirmação é de que as mulheres seriam sempre privilegiadas. Somente 21% das policiais acreditam que os homens que ingressaram na corporação no mesmo concurso do que elas estão em posição hierárquica superior ou em um estágio melhor da carreira.

Quanto ao contentamento, 40,9% das policiais estão satisfeitas com a profissão e 9,9% se dizem muito satisfeitas. Além disso, 65,7% pretendem se aposentar como profissional de segurança pública. O porcentual é quase o mesmo das respondentes que afirmam terem escolhido a profissão devido à estabilidade oferecida pelo serviço público (64,8%). Apenas 27,1% das policiais declaram que trocariam de emprego caso surgisse uma oportunidade melhor.

Por fim, a pesquisa aponta, ainda, que assim como grande parte das mulheres brasileiras, a maior parte das policiais respondentes fazem jornada dupla: na corporação e em casa. “Quando não estão em serviço, 75,7% das mulheres utilizam o tempo vago para afazeres domésticos, tendo que realizar praticamente uma jornada dupla”, comenta Samira.

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