Pequenas corrupções do dia a dia

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Pequenas corrupções são violações, legais ou éticas, que podemos praticar diariamente. Conscientes ou não, dos danos que essas práticas podem gerar, elas fazem parte do nosso universo. A questão é saber em que medida esses atos se convertem num problema. A resposta é… se atingem e afetam um número expressivo de indivíduos.

Dois exemplos: se optamos por subornar um guarda de trânsito para não sermos multados, evidentemente, que além da violação normativa, estamos criando uma situação que atinge diretamente a nós mesmos. Tanto num sentido positivo quanto negativo. Quando um funcionário público utiliza a sua influência para conseguir uma vaga em um hospital para um colega doente, então temos um ato que afeta a um maior número de cidadãos e interessados. Há outros pacientes que precisam da mesma vaga!

A pergunta que devemos fazer é “O que nos leva a cometer pequenos atos corruptos?” “Por que condenamos a grande corrupção na esfera pública e praticamos atos menores?” Uma das possíveis respostas é a escassez de bens e serviços. Vivemos num país que abandona uma parcela significativa da população e isso força buscarmos atalhos ou a darmos um jeito, para podermos seguir o dia-a-dia. Obviamente que nenhuma prática corrupta é aceitável, mesmo em condições de exclusão. A corrupção não pode ser a regra para vida em sociedade, em nenhuma circunstância.

Disto deriva o questionamento, “Como é possível impor limites a essas práticas?”. Temos, dentre as inúmeras alternativas, duas possibilidades: uma que está associada diretamente a educação de ética nas escolas e as campanhas de conscientização, que são eficazes e atingem um número grande de brasileiros; e a outra é a punição. A punição no sentido de aplicar sanções e/ou orientações e não mandar o cidadão para a cadeia, por 30 anos, por ter cometido pequenas corrupções.

A equação não é fácil e envolve soluções interligadas, mas em algum momento da nossa história teremos que nos debruçar sobre qual é o caminho que queremos seguir: se o caminho estreito, que encurta distância e facilita a obtenção de algo sem esforços, mas prejudica outros indivíduos; ou a via regular, que permite a todos usufruírem, mas implicará em esforços coletivos e algumas perdas individuais”.

Rita de Cássia Biason é cientista Política e Coordenadora do Centro de Estudos e Pesquisas sobre Corrupção, Unesp/Franca.

Foto: Divulgação

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