Operação Carne Fraca : consumidor está mais cauteloso após investigação dos frigoríficos BRF e JBS


Muda o comportamento do cliente no supermercado após as maiores empresas do ramo alimentício do país entrarem na operação Carne Fraca, que inclui : BRF(Sadia, Perdigão e Chester); JBS (Friboi, Seara, Big Frango, Swift e Maturatta); Grupo Peccin; Frigorífico Souza Ramos;Frigorífico Larissa; Mastercarnes (PR); Dagranja Agroindustrial Ltda; Frango a gosto; Fratelli comércio de Massas e Frios; Frigobeto Frigoríficos; Frigomax; Frigorífico 3D; Frigorífico Argus; Frigorífico Oregon; Frigorífico Rainha da Paz; Novilho Nobre; Primor Beef; Smartmeal; Unifrangos Agroindustrial;Central de Carnes Paranaense;Fábrica de Farinha de Carne Castro Ltda; e Unidos Comércio de Alimentos Ltda

Os consumidores estão optando por comprar carnes cortadas no momento da compra. No açougue, estão mais seletivos com a coloração, aspecto e cheiro. Os embutidos estão sendo substituídos por outros produtos enlatados como atum e sardinha.

Consumidor
A contadora Jane Dias disse que vai diminuir o consumo de embutidos. “Acredito que o principal problema deve estar nos processados, como salsicha e linguiça, e nos enlatados. Eu costumo comer, mas evito ao máximo esses embutidos. Agora vou tomar mais cuidado ainda.”

A gerente de projetos Rose Gomes ficou impressionada com as notícias e disse que vai rever os hábitos alimentares da família. “Agora, depois dessas matérias, vamos rever alguns pontos da nossa alimentação. A gente já tinha cuidado antes, agora, vai redobrar.”

Já a jornalista Paula Uchôa, que já tem cuidado redobrado por causa de restrições alimentares na família, vai tentar ampliar o vegetarianismo em casa. “Eu tenho uma filha que tem dermatite ectópica, então ela já tem alergia a embutidos, enlatados, condimentos. Em casa, a gente não usa. Também acho um absurdo esse negócio das carnes. Eu já não comia carne, agora eu estou com mais nojo ainda.”

Filho de argentinos, o contador Joan Pablo Francesch ficou impressionado com as notícias sobre a operação e já mudou os hábitos, mesmo que temporariamente. “Mesmo sendo amante e apreciador de carnes em geral, fui impactado negativamente com as notícias que circularam nos meios de comunicação e resolvi adotar medidas que dessem prioridade à minha saúde. Até o momento, penso em não consumir carnes até que a situação seja bem esclarecida e que os órgãos competentes sejam investigados por auditorias externas e que comprovem a procedência dos alimentos vendidos.”

Vigilância Sanitária
A Vigilância Sanitária Municipal do Rio de Janeiro recolheu amostras de carne e embutidos em supermercados para análise química em laboratório. Segundo a gerente técnica de Alimentação da Vigilância Sanitária, Aline Borges, o objetivo é analisar produtos das marcas envolvidas nas denúncias. “As marcas em que estamos focando são as envolvidas na Operação Carne Fraca, que são as produzidas pelos frigoríficos JBS e BRF, que são a Friboi, Perdigão, Sadia, Seara.” Os primeiros laudos devem ficar prontos em sete dias. “Vamos fazer a análise da microbiologia, para verificar se há algum micro-organismo que seja patogênico, como foi informado, salmonela, entre outros. Também vamos fazer a análise físico-química para saber se tem focos de outros produtos e análise de rotulagem.”

O material coletado está sendo encaminhado para o Laboratório Municipal de Saúde Pública, que vai verificar a contaminação por micro-organismos, a composição do produto, detectar corpos estranhos no alimento, há indícios de fraude, análise de cor, textura e odor. Os produtos com amostras insatisfatórias terão os lotes retirados de circulação.

Aline destaca que o consumidor deve ficar atento às condições de armazenamento nos locais de compra. “São as condições para qualquer produto perecível: verificar a questão da procedência, a temperatura de armazenamento, higiene do local, do equipamento, se a embalagem está íntegra, a data de validade. Se tiver algum problema com o produto ou o estabelecimento, entrar em contato pelo 1746 para fazer a reclamação, e a gente vai ao estabelecimento verificar.”

Durante a ação foram encontrados 380 quilos de produto que estavam em temperatura inadequada. “Foram carnes, embutidos, salsicha, mortadela que nós inutilizamos. O problema era de manutenção do equipamento, estava com temperatura inadequada, e uma parte já apresentava mau cheiro e coloração alterada.”

Supermercados
Os grupos Carrefour e Walmart pediram esclarecimentos para os frigoríficos BRF e JBS alvos da investigação e citados na Operação Carne Fraca da Polícia Federal. O Carrefour retirou da comercialização os produtos oriundos das fábricas citadas. Já o Walmart cancelou as compras dos investigados. A Associação Gaúcha de Supermercados (Agas) por meio de nota destaca que é uma defensora intransigente da segurança alimentar dos produtos comercializados à população gaúcha, e que repudia todo e qualquer ato ilícito realizado na cadeia da carne que venha a ser comprovado pela Operação Carne Fraca.

Antonio Cesa Longo -Presidente da Agas

O presidente da Agas, Antônio Cesa Longo, salienta que a procura por carne bovina no mercado interno gaúcho não deverá ser afetada pelas fraudes e contravenções divulgadas na Operação, uma vez que a carne bovina é um produto típico da culinária gaúcha.

Ao salientar que acredita na seriedade das grandes empresas do setor e na qualidade da cadeia produtiva da carne brasileira, a Agas lastima que o loteamento de cargos no poder público, em posições estratégicas que deveriam ser ocupadas por técnicos de carreira, tenha oportunizado uma crise de imagem com danos de dimensão e duração imensuráveis para esta cadeia.

Churrascarias paulistas
Em São Paulo, as churrascarias da zona oeste da cidade ainda não sentiram os efeitos das investigações da Polícia Federal.

De acordo com Cristiano Zuck, gerente de uma das churrascarias, o movimento foi normal no fim de semana. “Ainda não sentimos nenhum reflexo [da operação], a clientela foi a mesma no sábado e no domingo.”

Para ele, as churrascarias não vão sofrer os reflexos da operação. “Para nós, acredito que não vai ter mudança, mas no mercado internacional, sim”, lamentou. Zuck disse que o estabelecimento mantém um padrão de controle de qualidade. “Temos um pessoal que, quando chega a mercadoria, já seleciona para ver se está de acordo com o nosso padrão, e os nossos critérios continuam os mesmos.”

Cliente da churrascaria, o médico Rogério Ruiz disse que não vai diminuir o consumo de carne. “Talvez use mais critério na hora da compra da carne no varejo. Nas churrascarias tradicionais, imagino que eles devam ter um controle de qualidade, então acho que não há problemas.”

Já o taxista Osmar Rocha disse que vai diminuir o consumo de carne. “Vou diminuir o consumo por precaução, mas depois que eu vir que está tudo certo [com a fiscalização] volto a comprar mais porque gosto muito de carne.”

Nas outras churrascarias visitadas, gerentes e clientes preferiram não conversar com a reportagem, mas os funcionários destacaram que o movimento continua o mesmo. Para os funcionários, a crise econômica diminuiu o hábito de frequentar churrascarias antes mesmo da deflagração da operação da Polícia Federal.

Salsicha
Salsicha Viena, Frankfurt, Tipo Viena, Tipo Frankfurt, Carne de Ave e Peru. Há pelo menos seis variações do produto no mercado brasileiro. Cada versão é composta por alguma matéria-prima e técnicas de fabricação diferentes. A salsicha pode ser produzida com carne bovina, suína ou de frango. A matéria prima usada é decidida pelo fabricante, de acordo com o tipo de produto que deseja oferecer a seus clientes. O Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA) classifica a salsicha como sendo um “produto cárneo industrializado, obtido da emulsão de carne de uma ou mais espécies de animais de açougue, adicionados de ingredientes, embutido em envoltório natural, ou artificial ou por processo de extrusão, e submetido a um processo térmico adequado”.

As carnes utilizadas são aparas da desossa e sobra dos cortes que vão para os supermercados e açougues. Esse recorte é a matéria-prima para a produção da salsicha. Quando a salsicha é de carne de frango, é produzida a partir de carne mecanicamente separada (CMS), uma matéria prima “muito bem vinda, rica em proteína mineral e de preço bom. A CMS é “a carne obtida por processo mecânico de moagem e separação de ossos de animais de açougue, destinada à elaboração de produtos cárneos específicos. A CMS pode ser extraída do dorso ou do pescoço do frango. Esses dois são colocados na desossa mecânica e, por pressão, é extraída a carne.

O Regulamento Técnico de Identidade e Qualidade de Salsicha, publicado em 2000 pelo MAPA, permite que a salsicha seja composta de até 60% de CMS. O regulamento, além de trazer a definição de cada alimento, classifica a quantidade mínima de proteína que cada um deve ter em sua composição, bem como a quantidade máxima de gordura.