Demétrio Xavier interpreta Atahualpa Yupanqui em recital no Sargent Peppers

Demétrio Xavier - Foto Andrea Ávila
Demétrio Xavier – Foto Andrea Ávila


Demétrio Xavier apresenta o Recital Caminho e Silêncio: o canto de Yupanqui, na terça-feira, 5 de dezembro de 2017, às 21h, no Sargent Peppers ( Rua Quintino Bocaiúva, 256 ), em Porto Alegre / RS. Ingressos: R$ 25,00 na hora. Mais informações (51) 3331.3258.

ATAHUALPA YUPANQUI – 25 ANOS
Neste ano, 25 passados de sua morte, Atahualpa Yupanqui foi capa da Rolling Stones argentina. Que tão insólito é isso, afinal, para quem dizia que seu verso é um seixo que se despenca e rola, sonho e ferida? Os trovadores se parecem. Corações solitários que abrigam multidões e pertencem a toda a humanidade. Yupanqui agora desencilha, sem constrangimento (afinal, ele sabe que o assado é de ninguém e é de todos) na ramada do Sargent Pepper’s.

Talvez recorde aquele gaúcho bom e de alma enorme que viu ser alvo de tiros injustos diante de seus olhos de guri, no pampa argentino do início do século XX, enquanto pensa em Lennon e afina a guitarra de cordas invertidas, canhoto como Paul. Não é um saudosista; é homem de “registrar sua época”, dizia. Mas sem dúvida “acredita no ontem” e tem seus “lugares para recordar toda a vida, embora tenham mudado”, como diz em Mi tierra, te están cambiando, concordando com o que se escuta em Yesterday e In my life.

Não é um melancólico, mas considera a pena uma “boa companhia” – e se escrevesse no idioma de seu admirado Walt Whitman, diria com naturalidade, como os changos de Liverpool: “escolha uma música triste”. Em suas palavras, “que otros canten alegrías”. Em Strawberry Fields Forever, Lennon não achava que houvesse alguém na sua árvore. Atahualpa disse que a árvore que tu esqueceste sempre se lembra de ti e pediu a um velho algarrobo que não o deixasse partir. Mas essa raiz tão única e fundadora de cada um dos dois não serviria jamais para impedi-los de colocar-se em marcha. “Un día yo ví un camino y me puse a caminar”. “I’ll be on my way”, se quiserem. Nada escapa à atenção do trovador nesse caminho longo. Até as pedras falam. “Algo se diz nas pedras”. “Tremor, sombra”…”Algún algo”. Something.

Eles nos convidam e conduzem por seu caminho. “Eu quero segurar na sua mão”, dizem aqueles quatro – e o velho argentino concorda: gente de mano caliente… ou “de mão forte, sempre toureando o destino”. Eles nos convidam a cantar nossos cantos. “Sua canção encherá o ar. Cante alto para que eu possa ouvi-la”, disse Paul. “Como luz en lo oscuro”. Como alguém que fica ao nosso lado. Ou como em duas canções antológicas que bem poderiam ser uma única: “quando a noite chega e a terra fica escura e a lua é a única luz que vemos… Não, eu não terei medo”. Cuando salga la luna, cantaré.

Atahualpa Yupanqui sonhava com o anonimato como forma de alcançar a eternidade. Não lhe será fácil ser anônimo, como não será aos Beatles. Mas, sim; suas canções se repetem e mesclam na infinidade de trovadores que os sucedem, às vezes sem a lembrança da árvore que as origina. Não há corações solitários onde há palavras de sabedoria.

DEMÉTRIO XAVIER
Músico porto-alegrense, especializado, há 30 anos, na música crioula do Uruguai e da Argentina. Atua permanentemente no Rio Grande do Sul e nos dois países platinos. Enfatiza sua pesquisa na obra do argentino Atahualpa Yupanqui, tendo traduzido e gravado, em versão bilíngue, o seu poema maior, O Pajador Perseguido. Venceu a 36ª Califórnia da Canção Nativa com uma poesia musicada por Marco Aurélio Vasconcellos, A Sanga do Pedro Lira. Formado em Ciências Sociais pela UFRGS, conduz na FM Cultura, de Porto Alegre, o programa Cantos do Sul da Terra, dedicado à música e à literatura do Sul do continente.

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